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                                                Azuis  

    As escolhas não são baseadas apenas em desejos. A mesma opção seria trocada dependendo da idade na qual uma encruzilhada dividisse o destino. Em outra época não teria tanta paciência com alguém. Não teria tanto zelo. Parecia-lhe sua última chance. Era alguém especial, mas pesava sua idade e a dela. Ela teria tempo, ele não. Se não agisse com cautela ela fugiria e mais adiante encontraria alguém. Ele não teria tempo nem interesse para procurar ou achar alguém tão interessante. Conformara-se com o vazio que carregava. Nunca ninguém o preenchera tanto. Dera-se conta pela manhã, tão distraído em seu jornal, ouvindo o cantarolar dela. Estava pleno. Instantes depois, no silêncio da casa, apesar do recadinho na geladeira, estava novamente acompanhado do pleno vazio. Tentara muitas vezes os recomeços, mas não se entusiasmava muito. Nem sentia plenitude, nem esperanças. Resignara-se com seu destino, sem encontrar sua companheira perfeita.

Aceitara a sina, em sua memória, castigo bem merecido. Moleque ainda, nessas andanças inesperadas, por puro exibicionismo junto a amigos, acertara uma ave em pleno vôo. Tudo porque havia apostado num tira-teima, quem tinha melhor pontaria. Só depois de muitos anos, saberia tratar-se de um pássaro em extinção e ainda por cima, uma ave monogâmica. Suas intervenções ecológicas vieram tarde demais para a pobre arara azul que havia eliminado da Terra. Era muito jovem. Não tinha nenhuma consciência do que fizera, mas sempre retornava à cabeça aquela ave solitária lamentando a ausência de sua fêmea. Sentia-se de certa forma solidário com a pobre ave. Ele havia dizimado a companheira do inocente pássaro. Os deuses impediram-no de encontrar a sua.

Tornara-se protetor ambiental e justamente numa exposição sobre a fauna brasileira, avistou aquela mulher por quem logo se interessou. Tinha os cabelos soltos e usava roupas tipo cigana. Tirava fotos do que podia e não exitou em tirar a dele justamente junto a um painel de uma arara. No outro dia viu a foto num jornal de grande circulação, na coluna de divulgação do evento. Procurou junto ao setor de divulgação, informações que o levassem à jovem. Era uma jornalista free-lance bem conhecida. Ficou horas olhando para aquela foto. Para ele era um presságio, como se a jovem, sabendo de seu dilema interior, tivesse unido ambas as almas – a dele e a da arara azul. Seria um aviso ? Ele teria sido perdoado ?

A ave teria morrido e finalmente reencontrado sua alma gêmea ? Sua viuvez eterna chegaria ao fim ? Assim que se encontraram, recordou-se dele, afinal, a foto tinha ficado longo período em seu poder. Ele procurava entender se houve alguma intenção na escolha daquela foto. Se houve alguma sensação estranha antes de ser batida, enfim... Loucura! Ela não poderia estar no interior de seus pensamentos e devaneios. Fora acaso, sem dúvida, mas com a desculpa de querer um negativo, pode visitá-la mais uma vez, e ter coragem de chamá-la para um lanche... e trocar telefone ...e convidá-la para um show...cinema... Eram tão incríveis juntos! O mundo desintegrava-se, mas não o relógio e eram obrigados a continuar suas obrigações. As obrigações existem para mais valorizarmos os bons momentos e os bons momentos, para detestarmos as obrigações...

Tentou manter as feições sérias enquanto ouvia a história da arara, mas depois, soltou uma gargalhada que o assombrou. Como ria de algo que pesava em seus ombros há tanto tempo ? Recompôs -se num tom carinhoso. A história era linda, morrera de dó das pobres aves, mas não havia necessidade de continuar se culpando... afinal ele fora apenas um adolescente idiota que não teve noção de conseqüências... Estava debochando com aquele olhar maternal, até comovida e com sensibilidade, repetia :_ Você é ainda aquele menino, mas bem mais consciente. Hoje não faria novamente, e é isto que importa!

Fora absolvido. Sentia-se livre, rejuvenescido, pronto para recuperar o tempo perdido. Um jantar caprichado fazia parte de um ritual romântico. Os olhos iluminados pelas velas improvisadas, deixavam-na ainda mais sedutora. Suas mãos macias misturavam-se à maciez dos cabelos dela. Havia um mistério no olhar daquele instante. Havia mesmo. Ela o informou que iria passar um período supervisionando um grupo de trabalho em outro Estado. Não terminou o jantar. Ficou mal humorado o resto da semana evitando carinhos e tentativas de reaproximação. Não compareceu ao aeroporto para evitar maiores sofrimentos. Tentava não pensar nela. O sono passou a abordá-lo somente pela madrugada. Jamais sentira uma dor tão profunda... que o fazia lembrar da solidão da arara. Olhou para a foto tirada na exposição e pediu perdão à solitária ave, mas certamente já estavam quites. Sua fêmea voara para longe.... Estava numa praça bem organizada, com o olhar perdido entre os canteiros bem cuidados. Repentinamente avistou Alice tirando umas fotos de crianças no chafariz. O que ela fazia ali ? Andou em sua direção e ainda pode ouvir o disparo de uma arma. Não entendeu bem de onde partira, mas viu nitidamente quando a companheira caiu, ainda com a câmera fotográfica entre os dedos. A multidão agitou-se, os bombeiros chegaram em minutos enquanto ele, impotente, abraçava-a tentando reter-lhe a alma dentro do corpo inerte. Por que não fora ele a vítima do tiro ? No auge do desespero, seu grito de dor impulsionou-o para fora da cama.... Estava na cama ? Recompondo a mente percebeu tratar-se apenas de um pesadelo. Que corpo inerte. Por que não fora ele a vítima do tiro ? No auge do desespero, seu grito de dor impulsionou-o para fora da cama.... Estava na cama ? Recompondo a mente percebeu tratar-se apenas de um pesadelo. Que alívio ! Não havia acontecido. Ele não precisaria carregar aquele vazio e resto da vida... Subitamente percebeu o quanto estava em paz. Ela não estava a seu lado naquele instante, mas iria estar cedo ou tarde. Não seria a todo instante, mas voltaria em breve... Pela manhã ligaria para o Hotel em que ela estava. Diria o quanto tinha sido infantil. Diria que a amava e estaria no aeroporto na volta.... Não pode deixar de pensar na arara. Não havia como pagar aquela dívida... Repor aquela solidão eterna. Uma arara vive em média uns trinta anos. Ele já tinha cinquenta... A arara azul já devia estar morta e certamente voando por outros céus com sua companheira. Devem ter lhe dado uma chance por este motivo... tentaria aproveitá-la ...e como se voasse com as araras, adormeceu em paz.

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